terça-feira, 14 de julho de 2009

Os Dois Carretéis de Linha


Era uma vez uma menina muito carinhosa, inteligente e rechonchuda, de cabelos muito lisos e escuros, combinando com o castanho dos olhos. Seu nome era Mariana, e como acontecia em todos os Dias das Mães, o sorriso que sempre lhe enfeitava os lábios tinha desaparecido. Ninguém me contou não: eu estava lá, aos pés dela, e pude ver como a garota estava triste.

Logo cedo ela havia se levantado, com os olhos vermelhos. Eu, fiel companheira, também pulei cedo da cama e tratei de lhe mordiscar o queixo e lhe fazer coceguinhas com meu bigodão. Eu sempre fazia isso quando queria que ela me desse um sorriso, mas, naquele dia, nada funcionou.


O problema era grave: para quem Mariana ia entregar a caixa de costura que ela havia confeccionado na escola, para o Dia das Mães? Afinal, a mãe da menina tinha ido embora de casa quando Mariana ainda era um bebê e nunca mais havia dado notícias. Eu era só uma bolinha de pelo, mas me lembro muito bem daquele dia.


Ela achava – e todos os humanos ainda acham - que eu não entendia o que estava acontecendo. Bobagem! Eu sofria junto com ela cada vez que Marina sussurrava, com lágrimas nos olhos: eu devo ser muito ruim mesmo para a minha mãe não me querer!


Eu queria saber falar a língua dos humanos para lhe dizer que ela era a melhor dona do mundo, que merecia ser amada por todos, sempre. Mas só miados desafinados saíam da minha boca. Foi então que eu tomei uma atitude.


Primeiro, fui correndo até o quarto da minha dona e trouxe de volta, presa na boca, uma saia do uniforme. Deu certo!

- Isso, acho que o papai gostaria de ganhar a caixa de costura. É sempre ele que remenda meu uniforme, disse a menina, com um discreto sorriso.

Mas quando ela começou a embrulhar o presente, eu, uma gata muito sensível e sagaz, percebi que estava cometendo um erro. E saltei até a cozinha, perto dos chinelos da Dona Inês. A Mariana entendeu o recado.

- É verdade. A Dona Inês sempre me ajuda, organizando tudo aqui em casa. Ela bem que merece uma parte do presente.

Assim, Mariana decidiu que as agulhas, os alfinetes e as linhas ficariam para o pai e a caixinha para a empregada. Mas eu ainda não achei bom, e saltei para o parapeito da janela, caminhando em direção à casa da vizinha.

- Tem razão, Fifi. A Dona Sílvia me quer muito bem. Cuida de mim na piscina junto com os filhos dela, me dá lanche e até bronca. Vou dar a ela os alfinetes, disse a menina, já embrulhando os três pacotes.

Agora sim eu estava satisfeita, e por isso estranhei quando Mariana parou de fazer os pacotes. Será que o choro ia recomeçar?


Não, ela não estava chorando. Parecia pensar e pensar.... até que se levantou e pegou os dois carretéis de linha do presente que estava destinado ao pai. Um deles, ela levou até a minha casinha, na varanda. Aí, fui eu quem começou a chorar de emoção – Miau u u, Miau uu.


O segundo carretel, ela colocou delicadamente ao lado da foto da mãe.


- Assim, eu estou preparada caso ela decida voltar.


Miauu, Miau u u ...
Christiane Teixeira

6 comentários:

Rubens Gualdieri disse...

A Christiane já dispensa apresentações. Já faz parte desse espaço e será sempre bem-vinda. Prá variar adorei a história. Sensível no ponto certo, contundente no ponto certo. Dá até pra realizar o pensamento infantil como funciona... Parabéns.

Anônimo disse...

Adorei tbem! apesar de triste e comovente, senti alegria com a meiguice da gata. bjinhos Samantha

Gabriela Angeli disse...

Inusitado e bem pensado. Gostei do texto!

Beijos!

Ana Luisa disse...

Gostei dos textos. Até parece série, interessante. Ambos são tristes, mas demonstram com sabedoria o quanto devemos estar preparados para essas perdas.
Agora tenho meu segundo carretel, guardadinho.
Beijos

Tâmara disse...

Belo texto!

beijos!

Marcello disse...

sensível... triste... e fantástico. gostei muito. valeu pela postagem. abraços