sábado, 31 de outubro de 2009

Respeito




"Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver."

Clarice Lispector

[frase atribuída à escritora – retirada de uma carta publicada por Caio Fernando Abreu em 1995 – www.tvcultura.com.br]

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Struck




Minha amiga Rosângela Araújo teve a feliz ideia de me enviar um link muito interessante, que dá acesso ao curta-metragem Struck The Film. Vi no site oficial que ele ganhou diversos prêmios. Merecidamente, diga-se de passagem.

Joel, o personagem principal, é flechado no peito e aparentemente não tem como retirar a flecha. Ele tenta levar uma vida normal, apesar de poucos aceitarem o que lhe aconteceu – inclusive suas possíveis pretendentes. Aos poucos, ele aprende a lidar não somente com a presença da flecha em seu corpo, mas com sua dolorosa solidão. Um filme deliciosamente metafórico e muito poético, que além de engraçado é capaz de inspirar corações. Principalmente de quem já sabe o que uma flechada desse tipo pode causar.

São sete preciosos minutos que você não vai desperdiçar ao assistir. E atenção: continue assistindo após os créditos finais. Tentei postar aqui a versão com som original, mas não consegui. Para tentar deixar registrado (caso algum dia o site oficial do curta fique indisponível), baixei uma versão que ainda está no Youtube. De qualquer forma, recomendo que você não deixe de assistir a versão original no site:
http://www.struckthefilm.com/

Divirta-se e emocione-se.

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

As ruas





As ruas de Buenos Aires
já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas,
incômodas de gente e de bulício
mas as ruas indolentes do bairro,
quase invisíveis de tão usuais,
enternecidas de penumbra e de ocaso
e aquelas mais ao longe
carentes de árvores piedosas
onde austeras casinhas apenas se aventuram,
abrumadas por imortais distâncias,
a perder-se na profunda visão
de céu e de planura.
São para o solitário uma promessa
porque milhares de almas singulares as povoam,
únicas ante Deus e no tempo
e sem dúvida preciosas.
Para o Oeste, o Norte e o Sul
se desfraldaram - e são também a pátria - as ruas;
oxalá nos versos que traço
estejam essas bandeiras.


Jorge Luis Borges

Poema extraído do livro Fervor de Buenos Aires.
Foto de Rodolpho Oliveira.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Inferno astral





Sempre brinquei com essa coisa do inferno astral, uma espécie de força sobrenatural que, hipoteticamente, talvez, afeta o ser humano quando se está perto da data de aniversário, cerca de trinta dias antes. Apesar de não duvidar que isso fosse possível, levava na brincadeira. Brincava quando me servia de desculpa para qualquer coisa ruim ou desajustada que acontecia comigo no mesmo período. Achava que se acreditasse em sua existência, aí sim aconteceria de verdade.

Agora vejo que eu "pensava" que era desculpa. Agora acredito piamente. Estava revirando meu baú mental do passado e fui obrigado a admitir que ele existe. Pelo menos comigo. Ou é uma bruta coincidência. Mas o pior é que não acredito em coincidências.

Ainda mais pelos acontecimentos recentes. Começou no início do mês quando quebrei um pé. O estressante não é ter de ficar sentado ou deitado com o pé pra cima o tempo todo. Muitos filmes, muita tv, muitas leituras e muita internet. Não posso reclamar. Mas ficar em casa, com movimentos limitados e ainda ter de andar de muletas, tá sendo um porre!

Passou pouco da metade do mês, mas pela quantidade de notícias desagradáveis que recebi (e que tive de dar); por ler algumas mensagens que me deixaram puto; por mais de um ruído de comunicação dentro da família; pela perda de um amigo muito querido; por ter sido mais curioso que um gato e ver coisas desagradáveis pelo mesmo motivo, me roubando certas esperanças; e a cada hora um funcionário do serviço médico falando uma coisa pra ser providenciada sobre a perícia da minha lesão (uma "burrocracia" sem tamanho, tantas idas e vindas sem sucesso), realmente me estressaram, no limite. E pra piorar tudo, minha gastrite atacando novamente. Assim fica difícil não acreditar que estou no meu inferno astral. Ou está acontecendo pelo fato de achar que existe? Sei lá. Já não sei mais.

Justo eu, que sou reconhecido pelos amigos mais próximos como dono de uma paciência de Jó, com uma grande capacidade de afugentar o tédio, o pessimismo e os pensamentos ruins, sempre cheio de positivismo e muito otimista, tenho que considerar que é um outubro cinza.

Só não é negro porque outubro me trouxe algumas coisas boas também, como novas amizades; meu notebook; um maior entendimento dentro de casa; o reconhecimento de quem é realmente amigo; e o horário de verão que eu adoro.

É. Não está tão ruim. Mas continua cinza. A previsão é de pancadas de chuva. Por sorte possuo um guarda-chuva gigante. Apenas tinha esquecido de abrir.


***

O clipe do mês não poderia ser outro (Please – U2). Sei que deveria colocar uma música alto-astral, mas não expressaria como ainda me sinto. Um dia vou voltar aqui e dar risada de tudo isso.


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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Não encham o saco!


A premissa deste espaço é encher o saco, sem encher o saco de quem lê e tampouco de quem escreve. Então aqui vai: parem de encher o saco. Sim, eu quero gozar, não me encham o saco com a vitória do Brasil para sediar os 31° Jogos Olímpicos. Enrustidos de plantão, gozem a vida, parem de perturbar, festejem.

Desde a sexta-feira em que a delegação brasileira estava em Compenhage defendendo as olimpíadas no Brasil, estou sendo perturbado pelos chatos de plantão. “O Brasil não merece um evento desse porte”. “No Rio de Janeiro, então?”. “E os pobres que passam fome?”. “Isso é motivo pra roubar mais”. E por aí vai.

Então fica registrado aqui o meu pedido: Não encham o saco! Eu quero gozar.

Quero gozar esse momento, um divisor de águas que nos jogou à outra margem. A margem do desenvolvimento. Saímos do status de coadjuvates e observadores para protagonistas da nossa história. E uma história que podemos fazer juntos. Então, por isso eu digo: Não encham o saco. Eu quero gozar.

Eu sou da época que ensinavam na escola que o mundo era dividido em blocos: países de primeiro mundo (que inveja, que glamour, que bonito), países socialistas (esses não, comiam criancinhas) e países de terceiro mundo (o nosso lugar, bem longe do primeiro mundo e inexplicavelmente pior que os socialistas). Cresci com isso. Meu país é de terceiro mundo. É de terceira.

Hoje não. Hoje vamos sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Então, não encham o saco. Me deixem gozar. Jabor, só por hoje, cale a boca. José Simão, chega. Analistas econômicos, políticos, gestores e demais “cabeças intelectas do país imunes ao pão-e-circo”, por favor, calem-se. Gozem apenas.

Andam questionando: onde estão as favelas na apresentação do Rio?

Eu respondo: e a criminalidade, a probreza, discriminação racial e a (grande) desigualdade social de chicago?

Mostraram os atentados que, desde 2004, Madri vem sofrendo?

E Tókio? Em alguma parte da apresentação deles tinha a informação que, nos horários de pico, existem funcionários contratados exclusivamente para empurrar as pessoas dentro dos metrôs? Acho que não.

Provavelmente os mesmos chatos que enchem o saco e não gozam, também sejam os que reclamaram da propaganda das sandálias Havaianas. Não se alegram com as Olimpíadas e não gostam de ver gente falando sobre sexo. Mas isso é outra história.

Façam como os amantes. Gozem e deliciem-se do corpo e no corpo de seus parceiros. Homens, despejem mel em suas fêmeas. Mulheres, bebam dos corpos de seus homens. Não deem uma gozada burocrática para rapidamente vestirem-se sem deixar rastros. Isso é frio. É pobre. Como também é frio e pobre burocratizar uma festa.

Os problemas não acabaram, ao contrário. Eles existem, são reais e pedem olho vivo daqui pra frente. Mas só por hoje, só por agora, façam o seguinte: não encham o saco. Gozem e deixem gozar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ocupando a mesma jaula





“Eu não vivo com você. Nós ocupamos a mesma jaula'', diz Margaret (Elizabeth Taylor) ao personagem Brick (Paul Newman) em ''Gata em Teto de Zinco Quente'' (1958), no filme de Richard Brooks, baseado na peça de Tennessee Williams.

Filme que recomendo para todo mundo. Além das ótimas interpretações, os diálogos deixam os apreciadores da palavra totalmente alucinados diante de tanta maravilha.

Encontrei esta frase memorável no UOL Cinema. Quem já assistiu ao filme, sabe o quanto é significante na trama, nos levando a refletir na estranha prisão interior em que os personagens se submetem.

Esta frase cabe na vida (se é que podemos chamar uma relação assim de vida) de muitos casais no mundo inteiro. Nem todos sobrevivem. Nem todos suportam. Nem todos fingem que não acontece.

Nem todos percebem. O que é pior.

sábado, 19 de setembro de 2009

Devoro-te (três)





Não querer demorar
Seria não querer te devorar

Não quero assim esperar

Pois a demora que me devora
Quase permite calcular o quanto separa
O ontem do amanhã, do agora


Márcio Luiz Soares